Projeto de incentivo à leitura "Sempre um Papo" traz Fernando Morais à Curitiba

O escritor Fernando Morais visita Curitiba para o lançamento de “Montenegro: as Aventuras do Marechal que Fez uma Revolução nos Céus”

Por: Daniele Vieira Carneiro
Fotos: Lucimara de Souza




“Faz tempo que eu não venho à Curitiba para coisa séria. Pelo menos dez anos.” Foi assim que deu-se início à conversa descontraída com o escritor Fernando Morais na noite de quarta-feira, 29/11, no Teatro da Caixa Cultural. O escritor veio à convite do projeto “Sempre um Papo” de incentivo ao hábito da leitura, que proporciona a oportunidade de colocar o leitor cara a cara com seu escritor favorito, sem precisar pagar ingresso.

Fernando Morais veio à cidade para falar do seu mais recente livro “Montenegro: as Aventuras do Marechal que Fez uma Revolução nos Céus”, que é a biografia do marechal Casemiro Montenegro, piloto do primeiro vôo do Correio Aéreo Nacional, herói da aviação nos anos 30, preso em 1932, e inspirado no MIT [Massachussets Institute Of Technology], instituto tradicional de educação em áreas como ciência e tecnologia da cidade de Boston, nos Estados Unidos, viria a se tornar o criador do ITA - Instituto Tecnológico de Aeronáutica.

O escritor descobriu a história de Casemiro há seis anos, na época em que estava escrevendo o livro “Corações Sujos”. Fernando Morais estava fora do país, quando recebeu por email a sugestão de um amigo de São Paulo para que fizesse a biografia de Casemiro Montenegro. Numa outra ocasião teve contato num elevador com a neta de seis anos de Casemiro que disse à ele que a avó ficaria muito feliz se ele escrevesse um livro sobre a história do avô. Morais resolveu pesquisar a história e se apaixonou. “O Montenegro é um Indiana Jones do nosso tempo” disse o escritor ao falar emocionado sobre o piloto. “Só tinha um jeito de descobrir o Brasil naquela época que era de avião. Desbravaram o Brasil a pretexto de levar correspondência. A justificativa era essa. Hoje sabe-se mais de Júpiter, de Marte e da Lua do que do centro-oeste da Amazônia”, completou Morais.




Sobre Casemiro Montenegro, Fernando Morais contou algumas curiosidades bem humoradas. O marechal Montenegro inspirou-se no MIT [Massachussets Institute Of Technology] para montar algo parecido no Brasil, que viria a ser o ITA, e exigiu que o arquiteto Oscar Niemeyer tocasse o projeto. O presidente Dutra [que governou entre 1946 e 1951] não aceitou, disse que no Brasil nenhum comunista faria uma obra desse tipo. Casemiro deu a idéia à Oscar Niemeyer para que ele arranjasse um amigo para assinar a planta, e assim tocaram a obra. “O presidente Dutra morreu sem saber que a fachada do ITA recendia à Marxismo e Leninismo”, riu Morais. Desse episódio existe inclusive uma foto onde o Presidente Dutra está posando em frente à fachada do ITA, sem imaginar que o prédio era projeto de Oscar Niemeyer.


Início de carreira

Fernando Morais nasceu em Mariana, Minas Gerais. Sua carreira começou a partir de um grave incidente religioso familiar. Mariana é uma cidade que tem dezenas de igrejas, e onde fica a sede da Cúria, e da Mitra Diocesana [órgãos da mais alta importância dentro da Igreja Católica], mas seu pai, um bancário funcionário do Banco da Lavoura de Minas Gerais [atual Banco Real] era ateu. Sustentava com enorme dificuldade nove filhos, mas mesmo assim conseguiu montar uma biblioteca com três mil volumes, e fez com que os filhos crescessem cercados por livros. “Na cidade só havia duas escolas de ensino médio, sendo que uma formava freiras e a outra era um seminário que formava padres”, ele conta. O pai de Fernando Morais então resolveu procurar uma escola para os filhos em Belo Horizonte.

Dom Oscar de Oliveira, o primeiro bispo negro do Brasil ficou sabendo que o pai de Fernando Morais havia matriculado seus dois filhos mais velhos numa escola protestante em Belo Horizonte. O bispo ficou possesso e não pode admitir que o homem que administrava o dinheiro da Cúria e da Mitra Diocesana fosse matricular os filhos num colégio protestante. Ele foi até a casa de Fernando Morais para brigar com o pai do menino que um dia viria a ser escritor. O pai não admitiu tamanho desaforo, até que ele e o bispo Dom Oscar de Oliveira saíram no braço, e acabaram se agredindo. O pai de Fernando Morais foi excomungado pela Igreja Católica. Mais adiante na história, quando Dom Paulo Evaristo Arns ficou sabendo que o pai de Fernando Morais estava vivo, porém já com a idade avançada, tentou reverter a situação, mas não conseguiu nenhum resultado.

Depois desse episódio da briga com o bispo, o pai de Fernando Morais foi transferido e a família mudou-se da cidade de Mariana para Belo Horizonte. “Foi por causa dessa briga do meu pai com o Bispo que eu fui parar no jornalismo, que eu virei escritor, e que estou aqui hoje, contando essa história para vocês. Eu poderia estar até hoje em Mariana sendo bancário”, brincou Morais.

Aos 13 anos o garotinho Fernando foi trabalhar como office-boy na redação da revista do banco onde o pai trabalhava. Ele reprovou um ano na escola, e o pai teve que matriculá-lo em uma escola particular. Mas com a condição de que ele teria que trabalhar para ajudar em casa, já que havia reprovado. Apesar disso, Fernando era um excelente aluno em Português, História e Geografia. Certa vez, o repórter Antônio Walter Nascimento faltou bem no dia em que iria entrevistar a Miss Banco da Lavoura. “Antônio Walter Nascimento é um desses nomes que a gente não esquece. Hoje em dia ele é psicoterapeuta”, enfatiza. Perguntaram para Fernando se ele gostaria de substituí-lo na entrevista. Como ele era garoto, na época era um sonho poder entrevistar a Miss Banco da Lavoura. Ele recebeu um aumento e a oportunidade de virar repórter aos 13 anos de idade. “Dormi office-boy e acordei repórter!”, finaliza.


A escolha dos personagens de suas biografias e a relação com o cinema


Fernando foi questionado sobre os critérios que o levaram a escolher a história de uma pessoa e transformar em biografia. Entre os biografados pelo escritor estão Olga Benário Prestes em “Olga”, Assis Chateubriand em “Chatô, O Rei do Brasil”, e “Na Toca dos Leões”, biografia da agência de publicidade W/Brasil, ele conta, “Eu tenho que pressupor que o leitor é tão ignorante como eu sou antes de conhecer a história desse personagem, e eu tenho que surpreendê-lo e emocioná-lo com a história”.

Desde 1996 Fernando está preparando a biografia do senador Antônio Carlos Magalhães. ACM chegou a dizer em entrevista para Marília Gabriela que o escritor está esperando que ele morra para então publicar a biografia. No “Sempre um Papo” que ocorreu em Brasília, ACM foi visto por uma pessoa da platéia logo que chegou, e oportunamente a pergunta dirigida a Fernando Morais foi sobre quando sairia a biografia de ACM. ACM voltou a repetir a brincadeira de que Fernando estava esperando o senador morrer para lançar a obra. Mas Fernando explicou que não lançará a biografia enquanto ACM estiver ativo. Se tivesse lançado a biografia a alguns anos, não teria incluído a morte prematura do filho de ACM, o deputado federal Luís Eduardo Magalhães em 1998, vítima de um ataque cardíaco, nem a denúncia de manipulação do painel eletrônico em 2000, e o fim da era de 16 anos sob o comando de ACM, com a vitória de Jaques Wagner, candidato do PT ao governo da Bahia em 2006.

Atualmente, Fernando Morais está preparando a biografia do escritor Paulo Coelho desde o nascimento até os seus 60 anos de idade: “Essa vai ser uma obra datada, se alguém depois quiser pegar dos 60 anos do Paulo Coelho até os 120 e fazer outra biografia, por mim tudo bem” disse bem-humorado o escritor.

Para Fernando Morais, os personagens mais importantes da história do Brasil são aqueles do fim da República Velha até o golpe de 64, e do fim da ditadura. “Esse é o Brasil mais saboroso que dá filme e que dá livro”. Segundo o escritor os livros-reportagens são aqueles que mais contém informação sobre a história recente do Brasil. “São histórias reais e brasileiras. Os livros jornalísticos, os livros de não-ficção, são interessantes fornecedores de argumento de histórias para o cinema nacional. E os cineastas estão procurando por elas. Já está tudo mastigadinho para o cinema”.

Seu livro “Olga” virou filme em 2004 pelas mãos do cineasta Jayme Monjardim. As filmagens de Chatô iniciaram-se em 1995, quando os direitos de filmagem foram adquiridos pelo ator Guilherme Fontes, mas logo foram interrompidas, por falta de recursos financeiros, além da desconfiança do governo sobre possíveis desvios de verba, mas Guilherme foi inocentado pelo TCU (Tribunal de Contas da União). Desde então o ator protagoniza uma novela à parte para a finalização do filme que supostamente teve suas filmagens encerradas em 2002. “Chatô vai sair” disse Fernando Morais sob risos da platéia.

Morais não chegou a participar da produção dos filmes baseados em seus livros, mas leu os tratamentos do roteiro para que não houvesse nenhum deslize histórico. Também fez workshops para que os atores pudessem se inteirar sobre que foi o Brasil na época da ditadura. Para escrever “Olga” o escritor foi até a Alemanha para conversar com os amigos da juventude de Olga Benário, já bem velhinhos, porém muito prestativos. Quando escreveu Chatô, ele ganhou uma bolsa de pesquisas da Unicamp que lhe deu direito à dois pesquisadores para ajudar na tarefa de levantar dados e informações sobre a vida de Assis Chateubriand. Em troca, ele fazia palestras para os alunos de jornalismo contando à quantas andava o seu livro.

“Na Toca dos Leões”, livro que segundo sua própria definição “era pra ser bem light, e virou um triller de horror”, é a biografia da agência W/Brasil. O livro estava sendo escrito quando o publicitário Washington Olivetto foi seqüestrado, e permaneceu como refém durante 53 dias num cubículo de três metros por um, em 2001.


Os problemas enfrentados durante a carreira: Censura e processo



Depois que voltou de Cuba com o livro “A Ilha – Um repórter brasileiro no país de Fidel Castro” pronto para ser publicado, Fernando Morais teve que esperar até a poeira baixar. “Era um período muito barra-pesada”. Ele trouxe na bagagem vários slides de Cuba, mas como o livro não podia ser publicado, nem as fotos poderiam ser mostradas em público por conta das repreensões que poderia sofrer, ele fez uma apresentação dos slides na casa do jornalista Vladimir Herzog para sua esposa Clarice e os dois filhos.

O escritor está sendo processado há um ano e meio pelo deputado federal Ronaldo Caiado, por causa de um episódio narrado no livro “Na Toca dos Leões”, a biografia de uma das mais importantes agências de publicidade do país, a W/Brasil.

O trecho do livro se referia ao período em que Ronaldo Caiado foi candidato à Presidência da República em 1989, e queria a W/Brasil para produzir os anúncios de sua candidatura. Segundo o publicitário e sócio-fundador da empresa, Gabriel Zellmeister, Ronaldo Caiado contou que tinha um plano de acabar com a miséria do Brasil, que constava em adicionar um produto químico no tratamento de água que esterilizaria as mulheres do nordeste. Gabriel Zellmeister em entrevista a Fernando Morais contou esse episódio que foi publicado no livro. Ronaldo Caiado abriu processo contra Fernando Morais, Washington Olivetto e a Editora Planeta.

Por determinação do juiz da 7ª Vara Cível de Goiânia, Jeová Sardinha de Moraes, Fernando Morais não poderia se referir ao próprio livro e nem no assunto em público. Qualquer manifestação lhe custaria cinco mil reais de multa. O livro ficou quatro meses fora de circulação em mercado. O recolhimento de “Na Toca dos Leões” de todas as livrarias em território nacional causou grande repercussão e revolta no meio jornalístico. Ao final, a decisão que era favorável ao deputado Ronaldo Caiado, foi anulada pelo Tribunal de Justiça de Goiás. Segundo Fernando Morais foi a primeira vez em que ele viu a A Fenaj e o Sindicato dos Patrões se unirem, para demonstrar sua repulsa ao ocorrido. Fernando Morais disse que a decisão atentava contra “o direito da sociedade de ser informada das coisas”.


Situação do mercado literário no Brasil e a Educação



O escritor foi questionado por alguns participantes do bate-papo sobre sua opinião à respeito do mercado literário no Brasil e sobre a alta porcentagem de crianças que não conseguem interpretar textos no ensino fundamental. “Enquanto não resolver a educação, sempre haverá patamares de leitura baixos”, afirmou. E foi adiante: “Não adianta investir em ensino superior se não resolver lá embaixo, no primário. Esse país não muda a cara que tem se não mudar a educação”, concluiu.

Sobre o mercado literário ele tem uma perspectiva otimista “É um bom sintoma o interesse das editoras européias pela produção brasileira”. O escritor experimentou o sucesso do livro “Olga” também fora do Brasil. A obra já foi publicada em 21 países.


Os planos para o futuro

Alguma personalidades encantam Fernando Morais e para elas ele já tem planos futuros de possíveis biografias. O primeiro nome citado durante o bate-papo foi o do escritor Guimarães Rosa. Ele disse que já tem algumas idéias em relação à Rosa.

Mais adiante afirmou que através das suas biografias, ele está “cercando” Getúlio Vargas. “Não existe uma grande biografia dele”. Logo a seguir contou sobre uma viagem que fez com a família aos Estados Unidos, em que levou a filha numa livraria para ver se tinha “Olga” [sabendo que teria]. Perguntou à vendedora onde ficava a prateleira de biografias, que lhe respondeu que o “andar” das biografias era o terceiro. Ao chegar ao andar indicado ele notou que haviam 19 biografias de autores diferentes da ex-primeira dama americana Jaqueline Kennedy. E uma biografia definitiva de Getúlio Vargas está faltando.

Fernando contou também do proposta irrecusável feita por Carlos Lacerda Neto, para que ele escrevesse em um único livro a biografia de Carlos Lacerda e Getúlio Vargas, os dois maiores antagonistas da história da política brasileira. Mas por não chegarem à uma decisão por qual editora optar [Neto queria que a biografia saísse pela Editora Nova Fronteira pertencente à sua família, e Morais não queria deixar a Companhia das Letras], o projeto por enquanto permanece no papel para o futuro, que tomara, não esteja muito distante, para o enriquecimento da literatura brasileira, dom este que parece ser tão natural em Fernando Morais. “Cria-se naturezas ao longo da vida. Não estou com 60 anos à toa, criei minha própria natureza”, conclui.


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Essa matéria deveria ter sido publicada no Palavra Digital na última edição do ano [Novembro/2006], mas devido à demanda de atividades que designaram à nossa professora daquele período, a matéria nunca foi lançada on-line.

Um comentário:

solopoesie disse...

Auguri per una felice giornata di ferragosto......ANGELA